quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

8 ou 80

Aos mais susceptíveis, peço desculpa em antemão, mas todos os discursos pseudo-pedagógicos relacionados com a morte de personalidades começa-me a doer como uma picareta no escalpe. Quando não existia internet cada um se preocupava com os mortos da sua rua, hoje em dia todos se acham no direito de avaliar a vida de personalidades e de os considerarem ora o filho pródigo, ora o primo drogado do lado do pai.

Enche a juventude o facebook de fotos do Mandela quando foi o Eusébio a falecer e vice-versa, prova do impacto cultural que tiveram no crescimento desta geração, ou pelo menos o conhecimento que têm sobre isso. Vá de falar do Paul Walker que bom mocinho que era, com aqueles olhos azuis e cabelos airosos e loiros de certeza que nunca matou uma mosca. Agora, temos o Philip Hoffman, grande actor com um legado cinematográfico extraordinário, mas que morreu sob o efeito de drogas. Tenho efectivamente muita pena que tenha falecido, mas a genialidade dos seus papéis impedem que ele tivesse um vício? Faz dele alguém com uma carreira menos memorável? Agora de pouco adianta saberem se ele morreu entupido de heroína por gostar ou por “precisar”. Perdeu-se uma grande personagem e acima de tudo perdeu-se um homem que era importante para alguém.

Estamos perante uma sociedade que parece fazer a onda cada vez que o Justin Bieber é preso, viola, espanca ou o que quer que seja que a sua extraordinária equipa de marketing utiliza para ele não sair dos tablóides. Bem ou mal, todos sentem uma sede bandida em comentar os feitos publicitários desde e de outros, mas que tomam como fúteis porque todas as semanas há uma noticia maior para recordar e comentar. Homens que fazem história, com uma carreira séria, reservados ao ponto de nem nos lembramos deles até aparecerem nos Óscares uma vez a cada cinco anos, têm que ser julgados depois de mortos quanto aos seus vícios. Se é um exemplo? De todo que não. Mas droga há em todo o lado.

Garanto-vos que no vosso restaurante familiar, ou na loja onde compram meias têm alguém que é ou foi viciado em algum tipo de droga. Porém, nunca andaram convosco na escola, não sabem nem o seu nome, quanto mais aperceberem-se dos vícios que os fazem estar ali a dobrar camisolas todo o dia, e certamente não falarão deles no facebook a menos que vos ameacem com uma seringa. Hoje em dia é tão fácil adoptar um vício, como um cão abandonado. Há uma vida secreta em muita gente, não é preciso ser rico ou famoso, são todos humanos mas nem todos são dotados de força. Nem todos conseguem negar uma ajuda para aguentar mais um dia. Quantos de nós se podem gabar de não conhecer ninguém que tome anti-depressivos? Será a vida deles menos memorável? Se calhar, mas é principalmente para eles. Deixam de conseguir andar, apreciar, respirar sem ajuda e isso já é triste o suficiente para ainda serem avaliados depois de mortos. Mesmo sem se aperceberem, a opção por uma droga, em vida já lhes tirou demasiado, não fiquem a patinar na maionese em prol de vidas alheias mal vividas. A realidade é que por vezes nem as pessoas que temos perto conhecemos. Invistam bem o vosso tempo e vivam as vossas vidas, pois a menos que sejam gatos, não terão outra.

4 comentários:

  1. acho seriamente que este teu texto devia de ser divulgado muito boa gente devia ler isto e refletir sobre as próprias atitudes , ninguém sabe o dia de amanhã , ninguém sabe tudo sobre a pessoa que está ao nosso lado , e é como tu dizes "Hoje em dia é tão fácil adoptar um vício, como um cão abandonado." , é a maior das verdades mas ninguém percebe isso , não poderia concordar mais com este texto , aliás continuo a achar q deveria MESMO ser divulgado !

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  2. O que ele fazia ou deixava de fazer não nos diz mesmo respeito. Se era um exemplo? Talvez nesse aspeto não, mas como profissional não temos nada que lhe apontar. A genialidade com que interpretou os seus papéis não deve ser esquecida só porque sucumbiu a um vício que, infelizmente, tantos outros têm.
    Perdeu-se um enorme talento! Isso é que é triste. O resto, para bem ou para o mal, não nos cabe a nós julgar

    Beijinhos*

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