terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ausência de talento

A ausência de qualquer tipo de talento em mim, para além de comer laranjas de madrugada e não me parar a digestão (que segundo a minha avó é um feito milagroso ou bruxaria), é desde há poucas horas a maior bênção que poderia ter. Estou perante uma promoção laboral e uma vida pessoal digna de uma novela de baixa qualidade filmada na parte de trás de um barracão algures em Alcabideche. Não consigo conter as dúvidas e incertezas em mim quanto ao que me tornei e se será isto tudo o que tenho a dar ao mundo.

Somos educados à imagem de grandes figuras cuja importância, durante a nossa adolescência, ignoramos porque os nossos sonhos ainda não foram espezinhados pela realidade que hoje em dia o que podemos ter com mais facilidade em comum com o Gandhi é o ar débil ganho pelas horas de trabalho mal pagas e possível pontinha de depressão prestes a rebentar. Hoje, enquanto adulta, quero ter em mim a paz do Gandhi, a determinação do Luther King, os movimentos do Elvis! Porém, o auge do meu quotidiano é o senhor da padaria me oferecer um pão com chouriço e ninguém me chatear, em demasia, no local de trabalho.


Tornei-me numa pessoa sem grandes passatempos, por sofrer de preguiça crónica abandono tudo o que começo. Só me cativa a aventura e adrenalina, mas é dispendioso viajar e praticar a maioria dos desportos radicais, com excepção do car jacking, mas já nem esse é moda.



Sou enfadonha, sem talentos e interesses que não aqueles que são ditos ao desbarato por qualquer alma com dois dedos de testa. Mas na reflexão de que não sei fazer nada, fizeram-me ver que, posso não vir a descobrir a cura para o herpes ou criar uma máquina do tempo para fingir que havia sido eu a inventar o telefone, mas tenho importância para aqueles que me rodeiam (e se tiver filhos terão que levar com o meu apelido e os meus ditados alentejanos duvidosos durante as próximas gerações, perpetuando a minha existência pelo menos até eu ficar senil e acreditar que inventei o telefone que cura herpes).


Este é o meu blog (não que alguém se quisesse apropriar dele, mas nunca fiando), daquela que sem talento se ocupa com o que pode.

15 comentários:

  1. Também não sei fazer nada, deixa lá. Nunca fui prendada.

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    1. Temos outros encantos...certamente somos boas em pesca submarina ou algo que nos valha...

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  2. Ora bem... tenho uma coisa a dizer. Podes pensar que é graxa.. não é porque não tenho motivos para te lamber as botas (nem faz parte do meu estilo)... Segui-te como escritora do Meio Cheio e outros que entretanto abriste, e sou fã da tua forma de escrever. Não concordo com o que dizes. Tens MUITO talento e acredita que AMAVA conhecer-te pessoalmente. Acho que és fantástica nisto, por isso... pelo menos fica a saber que eu te admiro muito e que, se pudesse, inventava uma máquina do tempo para te roubar os textos e escrever um blogue com eles e poder dizer que fui eu que escrevi. (Roberta)

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  3. Há pouco tempo dei de caras com uma moça que tinha um "Specialize in nothing, excel in everything" gravado numa tshirt e algo me diz que a frase também se aplica a ti.

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    1. E isso significa o mundo para mim =). Obrigado

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  5. "Tornei-me numa pessoa sem grandes passatempos, por sofrer de preguiça crónica abandono tudo o que começo. Só me cativa a aventura e adrenalina, mas é dispendioso viajar e praticar a maioria dos desportos radicais, com excepção do car jacking, mas já nem esse é moda."

    Muito bom, maravilhosa entrada! :D

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    1. Vejo que aqui há apreciador de desportos radicais também...Muchas gracias ^^

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    2. Era exactamente a este tipo de dúvidas que eu me referia!
      Adorei. Parece que és a minha alma gémea e nem sabia. Com a diferença que tens muito mais talento para escrever do que eu!

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    3. vês as duvidas partilham-se =). Isto não é talento...é parvoíce acumulada...escreves muito bem Ana senão nem tinha parado para olhar duas vezes o teu blog =)

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    4. Prazer, Nada! :) Se tudo isto é parvoíce acumulada, então "bota" tudo para fora, o mundo quer ver!! :D

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  6. Gostei muito do sentido de humor por aqui e tornei-me seguidora
    Gábi

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  7. Já não tenho mais posts para ler neste blog... e isto de gargalhadas parvas Às 2 da manhã é coisa para arrancar vizinhos e roomies dos braços de Morfeu, mas valeu a pena :)

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  8. Cheguei ao fim, quer dizer, ao princípio.
    Com uma ou outra falha (minha) diverti-me e, sobretudo, aprendi muito
    Only clever people need clever people.
    Não precisa de responder, que eu vou voltando.
    Um sorriso por extenso

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